março 31, 2010

Fui


Preparei
Alma, Corpo, Sorriso, Mochila.
Como nos velhos tempos.
Coração na mão.
Fui.
Consumir as pulsões.
Mirarme en tus ojos.
Sentir o peso daquele instante.

Parti para o velho desconhecido.

Dançar conforme a música que nunca ouvi.
A me deliciar com a melodia.
Com os movimentos de sua dança.
De quadris.
De braços e pernas.
De força e mãos firmes, que se multiplicam longe do olhar.
Fui.
Fui com toda a gana,
Sin tener explicación.
Arrombar possibilidades.
Sin hablar.
Fui ter arrepios naquele mesmo vento
Que tocava minhas pernas
Soprando o gélido inverno e agora o faz derreter.

E.E. Cummings

Eu gosto do seu corpo.

Eu gosto do que ele faz.


Eu gosto de como ele faz.


Eu gosto de sentir as formas do seu corpo.


Dos seus ossos.


E de sentir o tremor firme e doce de quando lhe beijo


março 29, 2010

Diferenças

- O que você fez quando nada deu certo? Onde você estava quando ele desistiu?
- Insisti. Persisti. Aqui.
- E então o que aconteceu?
- Cansei, tive medo...Abandonei.
- E onde ele está agora que você fugiu? O que ele fez?
- Não sei, não lutou, abandonou. Outra vez desistiu.


.



"Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente,
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um sentimento subitamente imperativo."

março 25, 2010

Pensamentos científicos

Tenho pensamentos
Científicos
Sobre a física
E os raios de luminosidade.
Pensamentos científicos
São só coisas que me ocorrem,
E são como a unidade do mundo
Para estabelecer os fusos.
Coisas que ocorrem.

Mas será que tem lá
A mesma luz
Que tem aqui
Às 6:48 da manhã?

março 22, 2010

Ser sozinha


O corpo é a própria pulsação
O movimentar de pernas e braços
Lembram a felicidade de ter pernas e braços
Impulsão.
Respiração e marcha juntas.
Coluna reta.
Olhos em frente
A Natureza humana
A Natureza circundante
O vento
O prazer e a liberdade
De descolcar-se
Unicamente por esforço próprio


A mão se encarrega de tomá-lo
A outra a auxilia
Ambas o mostram aos olhos
Que recebem o que está no papel.
Decodificada a informação
A imaginação viaja
Imaginar
Compreender
Deixar-se levar por ideias
Que passam a ser suas
Entrar em um novo mundo
E tê-lo como seu.

Correr e ler.

Eis as minhas formas de ser sozinha.

março 19, 2010

Acordar

Ele sempre acordava cedo, cansado de ficar sozinho acordava ela também.
Ela dormia e acordou assustada com o barulho: ele tocava bateria no quarto ao lado.

- Não teria maneira mais delicada de me acordar não?

Silêncio e constrangimento, ele sempre foi desligado, e estava acustumado a morar sozinho.
Mas surgiu a idéia e então esse passou a ser um momento importante:
O de acordar.

No dia seguinte quando ela despertou, estava ele sentado na cama tocando Elvis no violão, enquanto cantava baixinho, com um chapéu de cowboy, que até hoje ele jura não saber de onde saiu. Foi engraçado e bem bonitinho. Desde esse dia o repertório variou: músicas francesas de Carla Bruni a Aznavour; em espanhol de boleros e tangos a mariachi para os dias de humor irreverente; bossa nova; jazz, e mais Elvis. Beijos e as vezes só ficar olhando e tomando chimarrão na porta do quarto, esperando que de alguma maneira mágica o olhar a acordasse. E dava certo.

Além disso, tantos outros detalhes haviam naqueles dias.
Que faziam nutrir um amor de cotidiano. Constituído nas pequenas coisas, e nas grandes doses diárias de paciência e compreensão.
Diante disso, o tempo era quase nada.

março 15, 2010

O novo começo

Subitamente, fui invadida por uma necessidade de vida que há tempos não possuía. Enredada por um sestro de felicidade, fui tomada por paixão e força. A tristeza suspensa, como poeira perfumada, logo desapareceu. Olhando meus traços, percebi uma nova luz no fundo dos olhos amassados por preocupações. Transformei-me em vontades para não mais ser indiferente a um olhar terno, para ser contemplada como algo vivo, claro e intenso. Dona de mim, outra vez, admirei as estrelas que brilhavam só para me acordar. Havia o dia de ontem, o dia de amanhã e eu estava inteiramente no momento presente. A lua declamava os caminhos coloridos das ruas por onde meus olhos deslizavam como em certos momentos brancos, onde tudo se torna reluzente. Passei por uma réstia de vento quente, sorri, com a certeza de que tudo havia passado. Invoquei a intuição quando precisei dela, quando percebi nos outros e em mim, as inventivas máscaras. Não participaria mais de nenhuma farsa. Depois das quedas e voltas, fugas e saltos, de olhos fechados, poderia fazer novas caminhadas sem medo de tropeçar. Lembrei-me assim, do eu esquecido, agora lembrado. Amei a mim milhões de vezes mais do que amo as minhas faltas e aflições. Por agora, deixadas de lado.

março 13, 2010

A Beleza


Crio conceitos sempre. Me norteiam pra ver a vida, caso pense diferente podemos construir algo juntos, é só manifestar-se.


Penso que se o Amor move o mundo, a Beleza o alimenta, principalmente pela motivação com que enche a alma. Nós necessitamos do que é belo para viver. Mas há a falsa beleza, aquela cobiçavel, que me lembra a vulgaridade da cena do cachorro faminto em frente ao balcão do açougue. Corpos, pessoas e objetos estão hoje no lugar da carne enquanto outras pessoas assumem o lugar do cachorro.

Não, realmente beleza não é algo que se queira consumir (como tentam nos vender). Beleza é antes de tudo algo passível de contemplação. Admirar uma bela pessoa ou uma obra de arte. O contemplar o horizonte acompanhado da exaustão após subir uma montanha. O contemplar quem se ama, enquanto dorme em uma manhã de sol (ou de chuva!). Admirar o esforço de um amigo em te ajudar, seja no que for. Ver o quanto a natureza é perfeita, e o quanto a vida pode ser simples. Perceber que a idade traz muito mais sabedoria do que rugas. Estar em familia e ser feliz simplesmente por ocupar o lugar que ocupa nos sentimentos de alguém. Essas coisas sim estão carregadas daquela beleza que nos enche a alma e nos fazem gostar do que é belo e não cobiçá-lo. Essas coisas sim, nos revelam, ao meu ver, o que é realmente a beleza dessa vida.

Os arranjos sociais nos fazem ver pessoas como feias, ou mal vestidas, ou sei lá o que mais... mas se uma dessas pessoas se torna importante pra nós, esquecemos desse conceito anterior, então a beleza vulgar ou a falta dela se discipam pois na verdade não têm importância real, só aparente.
Então fica o convite. Pense, (dentro ou fora) desse mundo de consumos, modismos, vulgaridades e apelos comerciais. O que faz a beleza na sua vida?

março 10, 2010

Amanecer

As gotas de chuva te trazem no cheiro da grama molhada.
A tempestade da noite se fantasia de orvalho.
O trigo já não é mais novo, e seu verde agora se veste de dourado.
O senhor das sombras faz desenhos
Nos campos e nos cabelos, curvando-os ao seu sabor.

A imensidão que enche o peito engana os olhos.
Respire-se esse ar de vastidão!
Vastidão de manhã fria
De primavera que não acordou.

O senhor da luz também brinca.
De fazer sombras
Sem fazer movimento.
O céu negro se faz iluminar.
Tentando mesmo espelhar-se na plantação.

O Astro-Rei descobre nosso espectro no chão.
A soberba de virar-lhe as costas
Desvenda um tapete verde à frente.
Animais ao longe.
Um espelho d’água.

O orvalho gelado para os pés
Ao molhar a roupa nem se sente.
A árvore dá sombra aos cavalos,
Que pastam alheios ao que se passa.

Saboreia-se em verdade a sensação
De ser parte do esplendor que se vê.
Para além do que se pode pensar
Então, muito mais do que um só corpo pode sentir.

março 08, 2010

Palavras

Olhando através da janela
Ela pensa em escrever uma carta de sentimentos rasgados
Mas hoje lhe custa rascunhar sobre emoções
Desiste
Porque o amor é uma coisa e a palavra é outra coisa
E só a alma sabe onde as duas se juntam
Olha para o céu colorido de tinta azul de todos os tons
E dentro dela só há tempestades
Como pode explicar?
Como falar de palavras que naufragam?
Palavras que não sabem que há sol
Porque aparecem e somem nos dias nebulosos
E deixam marcas no pensamento que ela nunca escreverá