outubro 18, 2010

As Chaves



A vida correndo e ela ali. Pensando sobre as cores do olho do gato, fotografias , no  instrumento de fundo de uma música antiga. Pensar na simplicidade dos detalhes apaziguava o humor montanha russa. Fixou em um imã de geladeira. Aquela coisinha colorida em fundo branco era o único objeto em seu devido lugar. Revistas espalhadas, discos antigos, papéis e várias roupas para dobrar. Tropeçou em algo no quarto – talvez um livro. Reparou em duas xícaras de café pela metade, lembrou que tinha vários e-mails para mandar. Calça jeans na cozinha. Onde estão as chaves? Sentou no meio da bagunça. Pensou em chorar. Pensou em se mudar. Mas a bagunça era dentro dela, o apartamento só refletia o que ela mesma  guardava. Riu. De alguma forma insana, agradeceu por ser assim. Percebeu que gastava seu tempo com o que realmente importava. Observava as cores das flores. Ouvia com atenção histórias de vida dos taxistas. Escrevia. Fumava um cigarro conversando com o porteiro, aprendia. Diminuia o passo para observar um casal que andava  abraçado, como se o mundo fosse acabar (eles tinham razão). Parava para olhar as crianças, recuperava energia. Guardava confissões. Estendia a mão. Dava seu tempo no treinamento de não julgar. Ouvia choros ao telefone. Acalmava e no intervalo entre os apertos aprendia com as experiências, olhares e percepções. Não, ela quase nunca arrumava a cama. Mas isso não importa. O tanto que tinha por dentro era confuso porque era muito. A cada dia, doando, absorvia mais. Naquele instante, entendeu que pior era ter pouco de vida, um armário organizado, cabeça pequena e olhos tapados. Encontrou as chaves. Na verdade, acho que ela nunca havia perdido. Bateu a porta do apartamento e foi viver.

4 comentários:

Rafael Sperling disse...

Muito bom Josi, ficou bem... real.
Bjs

Janice Coelho disse...

Lindo, a bagunça que a gente faz é sempre um reflexo da desordem da nossa cabeça. E bem disseste, organização demais é desinteressante. Coisa boa ter que procurar loucamente alguma coisa de vez em quando!

Ju ♥ disse...

viver é preciso...

Anônimo disse...

Tu ta cada vez melhor, dona.