Ela era viva, intensa, vermelha, dócil, confusa e impulsiva. Umas das loucas mais adoráveis que eu já conheci. Cabelo vermelho, sarcástica, bolo no forno e tatuagens. Cheia de defeitos, mas com o dobro de qualidades e um coração enorme. Mãezona e criança ao mesmo tempo, com seus inúmeros bichos de pelúcia espalhados pelo quarto. Sempre pronta, sempre disposta pra dar colo. Lembro que ela adorava doces, assim como eu. Lembro das noites de filmes e negrinho de panela, naquela cama branca, grande e fofa onde todos os amigos se atiravam, uns por cima dos outros, rindo alto. Vejo as minhas cicatrizes e inevitavelmente recordo as que ela, também, carregava no braço. Todas noites olho para o lado esquerdo da minha cama, onde ela colou adesivos bobos de bichinhos e, muitas vezes, ouço a voz dela me chamando carinhosamente de “negra”. Alguns meses antes de tudo acontecer ela planejava ter um filho. Parecia feliz, cheia de uma alegria maluca e contagiante que acompanhava aquela vida montanha russa. Tinha altos e muitos baixos, mas havia vida. Havia Vida. Já faz mais de um ano que ela se foi. E eu me lembro da minha amiga todos os dias. Não queria lembrar.

4 comentários:
Mas a lembrança faz parte da vida.
Bela homenagem
:)
Eu li esse texto mas mexeu demais comigo...vou ficar em silencio então!
tão lindo, tão sincero, de uma dor tão grande e de uma saudade imensa.
Há memórias que nos acompanham sempre!
Mil beijinhos.
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