setembro 09, 2011

Entrevista: Gabito Nunes



Mais uma vez o nosso Eutimia às Avessas realiza uma entrevista, dessa vez com o escritor Gabito Nunes. O cara é dono do site "Café, Garotas e Canções"  e escreve de uma forma muito interessante sobre mulheres e relacionamentos intensos.
Quem é o Gabito Nunes?
Gabito Nunes, 29 anos, Porto Alegre/RS, é um escritor lançado na internet, em seu próprio site, que hoje movimenta cerca de 50 mil visitas ao mês. Publicou "A Manhã Seguinte Sempre Chega" (Ed. Leitura, 2010), um livro de ensaios de amor; e o digital "O Tudo Que Sobrou" – crônicas sobre amor e perda (2011, independente). Leitor de Jack Kerouac, Woody Allen, Nick Hornby, Charles Bukowski, John Fante, Milan Kundera, Caio Fernando Abreu e Alain de Botton. Ouvinte de Beatles, Cazuza, Beck, Los Hermanos, Radiohead e João Gilberto.
Como e quando iniciou o seu interesse pela escrita? O que te motivou a tornar esses textos públicos?
Desde criança sentia que tinha uma aptidão para a escrita, lia-se muito lá em casa. Na adolescência passei a escrever em profusão: cartas, poemas, letras de música, etc. Tirava dez nas redações. Decidi então seguir a carreira no jornalismo, o que não vingou porque a criatividade é restrita a normas. Fui para a publicidade e aí me inclinei de vez para as letras. Tornar meus escritos públicos foi natural, nunca quis escrever para mim mesmo, não teria sentido algum sem externalizar isso.
Seus textos realmente definem o modo como você pensa e se comporta ou o cara que escreve o “Café, Garotas e canções” é um personagem?
Meu trabalho é de ficção, baseado em fatos reais, coisas que observo no cotidiano. Traz mais liberdade à escrita. Não quero expor minha opinião sobre as coisas ou minha visão de mundo. Isso não interessa a ninguém e tampouco eu tenho vontade de missionar. As pessoas querem encaixar-se no texto, fazer parte da viagem, não apenas ser um mero expectador. Às vezes me escondo atrás de um personagem ou outro. O que eu quero é dizer alguma coisa diferente sobre as relações, sem me ater a manuais de felicidade ou convenções. Gosto de escrever sobre como vejo as coisas funcionarem, sem qualquer juízo de moral. Sou apaixonado por relacionamentos egoístas e degradantes, no papel.
Em uma entrevista anterior você comentou que o assédio feminino é grande. Como você lida com isso? Escrever sobre sentimentos mudou a maneira como as mulheres se relacionam com você?
Existe assédio e eu já não soube lidar bem com isso. Agora é mais tranquilo. Escrever sobre o que eu escrevo e talvez como eu escrevo é natural que exista uma curiosidade. É como mexer numa caixa de marimbondos, alguma reação você vai causar. Mas eu não costumo me relacionar com meus leitores (não mais). Nossa via de comunicação é o próprio texto. Lá somos amigos íntimos, amantes, inimigos, paciente e terapeuta, como quiser. O isolamento é essencial pra quem escreve. Mas é curioso como algumas das garotas que me rejeitaram no passado agora querem saber de mim.
Você cita figuras como Kerouac, Woody Allen, Bukowski, entre outros. Os estilos desses autores te influenciam de alguma maneira? O que você tem lido ultimamente?
São algumas das minhas influências mais diretas. Esses dias li um comentário numa rede social que achei engraçado e que me fez pensar. “Ele é uma Clarice bem-humorada”. Apesar de praticamente nunca ter lido nada da Clarice Lispector, achei interessante a comparação. Como eu escrevo sobre coisas pesadas e densas, fico contente quando o leitor saca a ironia e o bom humor nas entrelinhas. E minhas influências ajudam nisso, tem muito do absurdo do Woody Allen, do humor típico inglês do Nick Hornby no que escrevo. Agora estou lendo “Um Dia” do David Nicholls, “As Teorias Selvagens” da Pola Oloixarac e “Vagabundos Iluminados” do Kerouac, todos ao mesmo tempo.
Seus textos começaram em função do término de um relacionamento, em um período intenso. O que você acha de escrever quando as coisas estão “normais”, quando não há sofrimento ou um momento de grande felicidade?
É engraçado isso. Atualmente estou passando por uma bonança afetiva, talvez o período mais estável de toda minha vida. E continuo escrevendo sobre autodestruição. Tive muito medo de perder essa veia e me tornar uma espécie de escritor-papai-noel-viciado-em-rivotril. Eu acho que o sofrimento é a raiz da felicidade. Você não chega a lugar nenhum dando o nome de “tristeza” a um determinado sentimento e o engavetando. Você precisa viver intensamente a dor também. A felicidade também dói e todos os meus textos são sobre felicidade. Talvez uma ponta da cauda dela. Mas, geralmente, sou uma pessoa melancólica e gosto disso. Se eu não tivesse a habilidade de ficar emburrado em casa talvez eu continuasse sendo publicitário e meu maior sonho seria trabalhar na Apple ou troço assim. Não seria eu, seria um outro qualquer, seria o que meus pais queriam que eu fosse.
Com qual freqüência você escreve? Quanto tempo você demora para escrever um texto normalmente?
Eu escrevo diariamente, às vezes para o site, às vezes em algum outro projeto impublicado. Dependendo do fluxo de inspiração, o texto sai em 30 minutos, mas pode durar horas ou dias. Eu costumo mastigar bem a ideia antes de escrever. E dificilmente reescrevo alguma coisa. Vai como saiu. Acho a brutalidade das palavras mais atraentes. Se você cuidar muito o que escreve acaba se cobrando demais. Não sou perfeccionista.  
Qual a melhor e a pior parte de ter suas opiniões expostas? Já sofreu alguma crítica que realmente te abalou?
Ninguém gosta de críticas, nem das construtivas, até porque não existem críticas tão construtivas assim. Ninguém vai agradar todo mundo. Costumo não ler muito o que as pessoas pensam sobre o que escrevo. Serve também para os elogios. Você não pode entrar na onda e achar que você é realmente o máximo ou um fracasso espetacular. Eu só lamento às vezes, quando um aspirante a escritor quer detonar você por recalque e esquece do quanto você precisa trabalhar pra chegar onde está. Mas existe muito mais carinho e admiração do que qualquer outra coisa, são fatos isolados, não tenho do que me queixar. Sei que tenho sorte até demais.
O que você acha que os seus leitores, homens e mulheres, esperam de um relacionamento? Você acha que as expectativas estão mudando com o passar do tempo?
Acho que hoje em dia já ficamos muito satisfeitos quando uma história simplesmente acontece. Já é alguma coisa. As pessoas tem ficado muito no quase e essa é a maior frustração. Sofrendo ou não, amando ou não, queremos viver as coisas. Mas o individualismo tem sido soberano e assim a vida acaba sendo um saco. Alguém precisa ceder. Mas acho que os relacionamentos estão mais lúcidos e realistas. Perdemos um pouco o gosto pela ficção. O que vier, vem bem.
Como foi para você o processo de criação do livro “A Manhã Seguinte Sempre Chega”? Quanto tempo levou?  Encontrou alguma dificuldade para escrevê-lo?
O livro é uma antologia de contos e crônicas da primeira fase do meu site, sublocados dentro de onze ciclos de uma vida amorosa, o que passa a ideia da impermanência da vida, dos ciclos de nascimento e morte. Não tive muito problema em escrevê-lo. Simplesmente aconteceu, uma editora se interessou pelo meu trabalho e quando vi estava publicando.
Quais são seus projetos futuros?
Uma nova antologia para o fim do ano e meu primeiro romance de ficção para 2012.
Ass: Gabito Nunes

Gabito, nós agradecemos muito a gentileza em responder as nossas perguntas. Vamos continuar acompanhando o teu sucesso, agora te conhecendo um pouco melhor. Obrigada!


E pra quem quiser saber mais sobre o Gabito Nunes e seus escritos: http://www.gabitonunes.com.br/

9 comentários:

Anônimo disse...

Show! Não conhecia...adorei.

Anônimo disse...

Conhecia o site dele e tal, mas não sabia nada sobre a vida dele...muito interessante. Valeu.

mfc disse...

Desconhecia e apreciei muito a entrevista!
Foca aspectos muito interessantes da vida.... e pouco discutidos.

Anônimo disse...

Achei bem interessante tb. fui no site dele li algumas coisas ótimas lá. Vi que têm outras entrevistas com ele tb. Pena que ele não linkou vcs lá, na parte de entrevistas. essa é uma das melhores que eu li.

Um beijo

Sara

Anônimo disse...

o Cara parece bom. Vou lá fuçar no site dele.

Anônimo disse...

Bah! Tb sou de Porto e não sabia que ele morava aqui, eu só conhecia umas frases que o povo posta na internet. Muito boa a entrevista.

Anônimo disse...

ameiiiii

Anônimo disse...

adoro ele.

D. Lima disse...

Gabito Nunes: Perfeito!
Sou fã incondicional dos textos e viciada no site dele!